Análise de conjuntura: ‘Crise no BRT é só uma pálida amostra’

Por Rubens dos Santos Oliveira (Presidente do Sintronac)

A crise no BRT na cidade do Rio de Janeiro é só uma pálida amostra do que ainda está por vir no transporte público. E não é de hoje, que nós, do Sintronac, alertamos que o colapso do sistema no estado do Rio de Janeiro é uma questão de tempo, que, por sinal, está ficando dia a dia mais curto. Somente agora iniciativas, ainda que isoladas, começam a pipocar em artigos, na chamada grande mídia, pedindo uma mudança radical no modelo de financiamento para operacionalização do setor de ônibus.

No Sintronac, essa discussão vem de anos e a diretoria do sindicato lançou centenas de alertas, através da imprensa, em seminários, em audiências públicas nos parlamentos estadual e municipais, em ofícios para várias instituições do governo, enfim, aos quatro ventos. Ninguém nos ouviu.

O fato é que o modelo implementado, atualmente, fracassou. Aqui, os governos insistem que somente as passagens banquem todo o sistema, dos salários dos trabalhadores aos custos operacionais, que envolvem manutenção e renovação da frota. Isso não é suficiente e a pandemia do coronavírus apenas agravou a questão.

Era óbvio, no entanto, há pelo menos seis anos, que o transporte público do estado caminhava para o abismo. A população, já destroçada em suas contas pessoais pelas sucessivas crises econômicas, terminou, como também antecipamos, refém dos reajustes no valor das passagens para ter um transporte público de qualidade e seguro.

Agora, contudo, tudo ruiu, expondo de vez a fragilidade de uma estrutura que parece ter sido criada para não dar certo. Não parece ser de interesse do poder público o investimento em transporte. Isso demandaria mudar outras áreas, onde grupos políticos se consolidaram como soberanos, como o de melhoramento das vias, segurança pública e embelezamento urbanístico.

Temos, mesmo no Brasil, exemplos de algumas tentativas de aprimoramento do setor de ônibus. Em São Paulo, as empresas paulistanas contam com subvenção do Estado e da Prefeitura, que chega a 20% dos custos operacionais, que representaram R$ 2,4 bilhões em 2020. Em Brasília, o valor foi de R$ 701 milhões. Em Curitiba, R$ 90 milhões. Já na Europa e Estados Unidos, o subsídio estatal do transporte público chega até 70%.

É preciso, portanto, que acabemos com essa ideia de que subsidiar os transportes significa “dar dinheiro” para empresários. Na realidade, essa prática representa melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, pois o setor alavanca uma série de transformações urbanas vitais para o funcionamento de uma cidade, como o fim dos congestionamentos, apenas em um primeiro momento.

Neste 1º de fevereiro de 2021, quando o BRT parou, em consequência da greve dos rodoviários, vimos o outro lado da moeda. As demais linhas de ônibus superlotaram e as vans e as lotadas, muitas sob o controle das máfias que se instalaram na capital fluminense, entre elas as milícias, tomaram conta das ruas e chegavam a cobrar até R$ 10,00 para os usuários. Gratuidades? Nem pensar. Para esses criminosos, que se danem os idosos e quem mais necessitar do benefício.

Chegamos, pois, a essa encruzilhada. Para onde pretendemos levar o setor de transportes públicos no Rio de Janeiro? Respostas superficiais não atenderão às necessidades do povo e dos trabalhadores rodoviários. Mas sempre estaremos à disposição pra dialogar e chegar a conclusões práticas, lógicas e possíveis.