Departamento Médico do SINTRONAC mapeia as doenças dos rodoviários

Pelo menos 1.290 rodoviários e familiares recebem tratamento contínuo no Departamento Médico do Sindicato dos Rodoviários de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac). Deste total, 903 (70%) são motoristas de ônibus e 500 estão afastados de suas funções sem previsão de volta. Os especialistas em Medicina do Trabalho da entidade são unânimes em apontar o estresse no exercício da função como a origem de doenças graves, que levaram os profissionais a procurarem as especialidades de Cardiologia, Neurologia, Neuropsiquiatria, Psicologia, Fisioterapia e Nutricionismo.

Os médicos do Sintronac concordam que os rodoviários estão sendo submetidos a uma rotina de trabalho dura e são extremamente frágeis a fatores externos, como a violência, o caos urbano, ameaças de passageiros, equipamentos de trabalho inadequados, dupla função (com motoristas atuando como cobradores), desemprego e, mais recentemente, a ameaça do Covid-19.

“Temos 70% dos casos relacionados à hipertensão arterial. Os demais são complicações como arritmia cardíaca, cardiopatia estrutural, diabetes, colesterol alto e doenças vasculares periféricas, como a carótida e os membros inferiores. A origem desses males são as condições de trabalhador em seu próprio meio profissional, agravadas pela violência, o estresse cotidiano, a insegurança no emprego e, agora, a pandemia. Seria fundamental que as empresas permitissem a seus profissionais ao menos uma revisão cardiológica por ano, pois a ampla maioria, pela carga horária de trabalho, não consegue fazer isso. Só nos procuram para iniciar um tratamento quando passam mal”, afirma o cardiologista e médico intensivista Jaime Dela Rosa, que, há um ano, atua no Sintronac.

Jaime Dela Rosa aponta a hipertensão como origem de complicações cardíacas

O Sintronac classifica como tratamento contínuo quando o paciente faz consultas semanais por mais de três meses. As áreas de Neurologia e Neuropsiquiatria têm 500 pessoas em tratamento contínuo; a Fisioterapia, 450; a Cardiologia, 130; a Psicologia, 80; e 130 têm auxílio de nutricionistas.

“Problemas articulares, na coluna, joelho e a síndrome miofascial (dor em partes do corpo aparentemente não relacionadas por pressão sobre pontos sensíveis dos músculos) são os mais comuns entre os rodoviários. Isso tudo é resultado de um profissional que passa várias horas na mesma postura, com carga horária excessiva e submetido a grande tensão. Temos usado a acupuntura com sucesso para aliviar o estresse”, diz Rodrigo Grandelli, fisioterapeuta e professor de Fisioterapia, que trabalha há 15 anos no Sintronac.

Rodrigo Grandelli (dir.) atende o rodoviário Antônio Rodrigues Santana

Há casos em que os motoristas de ônibus sofrem com várias doenças e precisam de tratamento multidisciplinar. Antônio Rodrigues Santana, de 51 anos, rodoviário há 21, tem hérnia de disco, hipertensão arterial e síndrome do pânico. Todas foram controladas em tratamentos no Departamento Médico do Sintronac nas áreas de Fisioterapia, Cardiologia, Neurologia e Neuropsiquiatria.

“Já vi de tudo dirigindo ônibus. Sofri assaltos, fui sequestrado com o coletivo, vi gente ser assassinada na minha frente, brigas, fui agredido e ainda, para sustentar a família, tenho que trabalhar muito e, agora, também somos cobradores. Essa carga de estresse vai se acumulando e, chega uma hora, que arrebenta com tua mente e teu corpo. Hoje estou bem, com minhas doenças sob controle, mas sei que são para a vida toda e vou precisar sempre de ajuda médica. Não temos como pagar planos de saúde, que estão caros demais, e o sistema público é deficiente. Por isso conto muito com o sindicato”, assegura ele.

De acordo com o ortopedista Jorge Alves, há 15 anos no Sintronac, as condições de trabalho inadequadas e a má conservação das vias nas cidades também são fatores que contribuem para o agravamento das condições de saúde dos rodoviários.

“O motorista fica horas na mesma posição, sentado em um banco em geral inadequado, sem amortecedor, sacudindo e levando trancos em buracos nas ruas. Isso acaba com a coluna, as articulações e, em geral, a hérnia de disco é uma consequência dessas condições de trabalho”, avalia o especialista.

Jorge Alves diz que motoristas enfrentam condições de trabalho inadequadas

Para melhorar essas condições de trabalho dos rodoviários, o Sintronac reuniu pareceres de um grupo de especialistas médicos, que aponta, inclusive, a dupla função como um agravante desse quadro dramático de saúde coletiva da categoria. O documento foi encaminhado para o Ministério Público do Trabalho (MPT), propondo ao órgão uma ação na Justiça para evitar essa prática. Ao mesmo tempo, cobra do poder público e das empresas o aprimoramento da frota e melhorias na área de Segurança Pública.

“Há dois caminhos a serem seguidos em relação à dupla função: ou se inclui nos contratos de concessão das linhas de ônibus a volta dos cobradores, ou se adota um sistema de pagamento unicamente através de meio eletrônico, inclusive com o uso de cartões bancários de débito e crédito, acabando assim a circulação de dinheiro em espécie nos coletivos, o que também diminuiria a incidência de assaltos. Acredito que a solução tecnológica seja  a mais viável a curto prazo. Também é necessária a adoção do câmbio automático em toda a frota, o que também aliviaria muito o desgaste físico dos motoristas”, analisa o presidente do Sintronac, Rubens dos Santos Oliveira.

Essa reportagem ganhou destaque no jornal O Dia em 31/07/2020: https://odia.ig.com.br/niteroi/2020/07/5962079-quase-10–dos-rodoviarios-fazem-tratamento-continuo-de-doencas-laborais.html#foto=1