Trabalhadores rodoviários ficam à margem das negociações entre empresas e governos

Rubens dos Santos Oliveira

(presidente do SINTRONAC)

 

Em 1º de abril, o Sindicato dos Rodoviários de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac) retoma as negociações salariais com a entidade patronal, representante das empresas no Leste Fluminense, abrangendo os municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Maricá e Tanguá. Há a possibilidade de greve, caso não haja acordo.

Ao longo de março, o sindicato realizará assembleias para referendar ou mesmo aprimorar a pauta de reivindicações da categoria, definida em outubro do ano passado, que consiste em aumento de 4%; cesta básica de R$ 320,00; cofres em todos os pontos finais para recolhimento do dinheiro das passagens; manutenção das cláusulas da atual Convenção Coletiva; e 2% de comissão para motoristas que exercem a dupla função.

A campanha salarial foi suspensa pela própria categoria, em assembleia realizada em 6 de novembro de 2020, em consequência da crise econômica no setor de ônibus, agravada com o coronavírus, que inviabilizou as operações das empresas, causando um rombo de até 60% no faturamento das viações.

A diretoria do Sintronac, no entanto, tem acompanhado o posicionamento das lideranças empresariais do setor em suas reivindicações frente aos governos. Os constantes reajustes no preço do óleo diesel, segundo insumo de maior peso no custo de operação dos ônibus, tem sido o principal motivo de queixa da classe patronal na esfera federal. Nos âmbitos estadual e municipal, os empresários reclamam da total falta de apoio ao setor durante a pandemia.

Os governos, por sua vez, têm-se mostrado, em todos os níveis, insensíveis aos apelos do setor de transportes. O presidente da República, Jair Bolsonaro, vetou o socorro de R$ 4 bilhões, aprovado pelo Congresso Nacional, dinheiro que poderia cobrir, em parte, as perdas financeiras das companhias e evitar demissões. Não renovou, também, o Benefício Emergencial (BEm), que ajudou a compor os salários ao longo do ano passado, diante da política de redução da jornada de trabalho adotada pelas empresas.

Estado e municípios, por sua vez, devem milhões, referentes aos repasses das gratuidades, o que também aliviaria o colapso contábil das empresas, que, de quebra, não vislumbram a possibilidade de reajuste no preço das passagens, única fonte de arrecadação do sistema adotado no estado do Rio de Janeiro.

O embate entre empresas e governos, contudo, deixa de fora o principal personagem nesse catastrófico enredo desenhado para o setor de transporte público no estado e, também, no País: os trabalhadores. Os rodoviários acumulam, ao longo de, pelo menos, seis anos, demissões e perdas salariais significativas no Rio de Janeiro.

Na área de atuação do Sintronac, a muito custo, conseguimos evitar um desastre maior nas contas da categoria, mantendo, nos últimos dois anos, o aumento salarial equivalente ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, além de garantir benefícios como a cesta básica e o auxílio-uniforme, entre outros. Mas as demissões foram inevitáveis, principalmente com o fracasso do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj) e com a devastação promovida pelo coronavírus.

A diretoria do Sintronac, eleita democraticamente e, portanto, legítima porta-voz dos rodoviários, entende que a população já está sacrificada demais com as constantes altas nos preços dos alimentos e dos combustíveis. Um reajuste nas passagens de ônibus, portanto, deve ser estudado com muita cautela. Mas a categoria não pode sofrer mais perdas, enquanto autoridades públicas e empresas defendem apenas seus interesses.

Nem mesmo a solicitação do Sintronac, de que fosse elaborado um plano de vacinação dos rodoviários, uma vez que estamos incluídos como grupo prioritário no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, foi atendida pelo Estado e pelos municípios, o que demonstra o descaso com uma categoria considerada essencial.

É preciso, portanto, que enfrentemos com coragem a situação caótica do transporte público no estado. Alertamos que, se governos e empresas insistirem no caminho em que estão, o setor voltará à época em que quadrilhas organizadas tomavam conta das ruas das cidades, matando inocentes e desprezando a Justiça, enquanto os passageiros ficavam ao capricho desses criminosos.

Devemos buscar uma alternativa para viabilizar o sistema de transporte por ônibus, único a atender a grande demanda de passageiros municipais e intermunicipais, garantindo, aos rodoviários, seus direitos previstos em Lei. Caso contrário, não restará saída, a não ser os trabalhadores tomarem para si a responsabilidade por uma mudança real, através de seu maior instrumento de pressão, garantido pela Constituição: a greve.